
O Resource Center da Casa Thomas Jefferson, como parte de um Centro Binacional, tem entre suas principais missões promover experiências educativas que conectem cultura, linguagem e temas contemporâneos. Nesse contexto, foi desenvolvida, em março de 2026, uma proposta alinhada a uma importante data do calendário global: o World Water Day. A partir dessa temática, surgiu o desafio de desenvolver uma atividade que fosse além da conscientização básica sobre economia de água, conectando o tema com a realidade digital dos participantes.
Desse desafio nasceu a oficina “Consciência Digital e Sustentabilidade: O Uso da Água em Tecnologias de Inteligência Artificial". Se usamos Inteligência Artificial todos os dias, será que sabemos o que acontece por trás disso?
A atividade foi estruturada para provocar curiosidade desde o início. Ao chegarem ao espaço, os participantes eram convidados a observar imagens de data centers. Antes de qualquer explicação, a proposta era “olhar de perto”, levantar hipóteses e conversar. Entre cabos, servidores e luzes, os participantes começaram a construir suas próprias interpretações sobre aqueles espaços que, embora estejam fisicamente distantes do nosso cotidiano, fazem parte de muitas das experiências digitais que vivenciamos todos os dias.
A pergunta norteadora era direta: “O que você acha que está acontecendo aqui?” A partir das respostas, surgiram hipóteses que iam desde “é um lugar que guarda informações” até “parece algo muito quente”. Esse momento foi essencial para ativar o pensamento crítico e preparar o terreno para a discussão.
Em seguida, houve uma quebra de expectativa. Foram apresentados exemplos de imagens e vídeos gerados por Inteligência Artificial Generativa (IA Gen), conteúdos cada vez mais presentes no cotidiano dos alunos, muitas vezes vistos como entretenimento rápido. Foi nesse momento que veio a provocação central: e quando usamos IA Gen para criar uma imagem, um texto ou um vídeo, o que acontece por trás da tela? Tudo isso consome recursos. E mais do que energia, consome água.
A explicação sobre o uso da água em sistemas de resfriamento de data centers foi feita de forma acessível, conectando o conceito ao que os participantes já haviam observado. O objetivo não era criticar o uso da tecnologia, mas ampliar a consciência sobre seu impacto.
A conversa avançou para um aspecto menos visível da tecnologia: os recursos físicos necessários para que sistemas digitais funcionem. Falamos sobre os data centers e sobre o consumo da água em sistemas de resfriamento, ampliando a percepção de que aquilo que parece acontecer “na nuvem” depende, na verdade, de uma infraestrutura bastante concreta.
A intenção não era demonizar a tecnologia ou dizer aos participantes o que deveriam ou não fazer. Era simplesmente tornar visível o que normalmente fica invisível. E foi justamente aí que a atividade ganhou diferentes caminhos.
Crianças se envolveram especialmente com as imagens e com a descoberta de como funcionam os data centers. Adolescentes e adultos ampliaram a conversa para questões como consumo digital, responsabilidade, uso ético da IA Gen e até uma pergunta que rende muitos outros debates: se uma imagem é criada por Inteligência Artificial, podemos considerá-la arte?
Esse é um dos aspectos que mais valorizamos nas experiências desenvolvidas no Thomas Maker e nos Resource Centers da Casa Thomas Jefferson: não oferecer respostas prontas, mas criar condições para que boas perguntas aconteçam.
Para quem trabalha com educação midiática e letramento em IA, essa mudança de perspectiva é fundamental. Mais do que ensinar a usar uma nova ferramenta, queremos ajudar crianças, jovens e adultos a compreender como essas tecnologias funcionam, quais impactos produzem e quais escolhas fazemos quando interagimos com elas.
Uma imagem gerada por IA Gen pode parecer instantânea. Um clique pode dar a impressão de que nada aconteceu além daquilo que vemos na tela. Mas, por trás dessa experiência aparentemente simples, existe uma infraestrutura, existe consumo de recursos e existem escolhas humanas. Tornar essas conexões visíveis também é uma forma de tornar esse aprendizado visível.
E é por isso que, no Thomas Maker, acreditamos que aprender pode sempre começar com uma boa pergunta que nos faz parar, observar e pensar: o que existe por trás daquilo que parece tão simples?
E, quando essa pergunta nos ajuda a olhar para a tecnologia de uma maneira mais crítica, criativa e consciente, já temos um ótimo ponto de partida para aprender de forma muito mais significativa, hoje e sempre.
Relato de Daniel Frois , educador maker que conduziu e facilitou essa atividade no RC da Asa Norte.
Sarah - Maker, 21/Out/2026